[ editar artigo]

Mobilização não pode ser mera cooptação

Mobilização não pode ser mera cooptação

O que seria na prática uma mobilização missionária? Comumente, observamos uma grande confusão nisso e não rara a ideia de mobilização bem sucedida se dá na adesão a um projeto pronto, no qual aquele que mobilizamos se integra com seus recursos ou habilidades, mas pouco influencia no que foi pensado originalmente. Replicamos com facilidade a prática de venda culturalmente desenvolvida e estabelecemos com frequência o sucesso da chamada mobilização pela análise da quantidade de agentes que “compraram a ideia”. Será esse de fato a métrica para definição de uma mobilização missionária eficiente?

Em missões, temos agendas urgentes, carências urgentes, grandes desafios, e como Ronaldo Lidório diz para geração atual: o foco está entre “os povos com maior grau de complexidade das regiões mais complexas”. Com as nossas práticas, acreditamos que vamos ajudar a convencer as organizações missionárias (incluo aí a igreja local) do seu fundamental papel para projetos sustentáveis? Estou convicto que isto deve ser um dos aspectos da mobilização missionária: promover a compreensão bíblica mais profunda do papel dos agentes da missão, na missão de Deus.

Repensando nossa maneira de provocar a participação nas inciativas missionárias, podemos ser ainda mais criativos: que tal oferecer ambientes de interação ao invés de somente adesão? E estimular a manifestação dos melhores potenciais, descobrindo a forma mais harmônica de uní-los? Faz sentido? De forma ainda mais concreta, partindo da ideia de que todos já entenderam as suas vocações em anunciar Cristo em todos os povos: por que não optar pelos desafios missionários que o nosso público-alvo já tem experiência? Uma maneira de fazer isso seria, primeiro, introduzirmos os grandes temas que envolvem a caminhada de quem está no campo e, considerando o interesse de quem nos ouve, atuarmos na conversa para unir esforços. Acredito que isto proporcionaria mais do que um ação conjunta pontual, mas sim a conscientização e identificação da importância todos para superarmos os desafios contemporâneos. Unir para fortalecer.

Queridos irmãos podem me dizer que faltam em algumas organizações o mais básico entendimento sobre o seu bíblico papel, o que impede um diálogo profundo sobre como podemos responder juntos os problemas difíceis e muitas vezes não convencionais. Respondo que se não permitirmos uma desaceleração (não é uma parada!) em alguns cenários de mobilização, sempre atuaremos nas demandas e pouco investiremos no fortalecimento de alianças, o que de fato fará diferença.  

 Ao nos permitirmos desacelerar para nos somar uns aos outros, abrimos espaço para inovação. Quer ver um exemplo? Reclamamos muitas vezes da pouca compreensão sobre sustento missionário, o que muitas vezes obriga aquele, que está na linha de frente, a sair do campo ou utilizar das férias para arregimentar novos parceiros para um novo ciclo de trabalho. Pergunto: como buscaremos uma consciência mais profunda do papel de cada cristão se focamos repetidamente em ditar a forma de ingresso no projeto ao invés de ajudar a pensar sobre a vocação e interesse de cada um? Fica difícil pensar sobre a sustentabilidade do missionário de base ou do mobilizador missionário, por exemplo, com essa forma de promoção de missões que comumente oferecemos. No interesse de atender sempre uma demanda urgente de uma das organizações, acaba-se focando exclusivamente em recursos financeiros ou humanos em detrimento do envolvimento inteiro de quem mobilizamos.

Nessa proposta relacional de mobilização que estou levantando aqui, exercitaremos algo que é fundamental nas construções "ombro a ombro": ouvir. Se promovemos o tema, falamos dos desafios e ouvimos as partes dizerem de que maneira sua vocação e habilidades podem ser úteis para o fortalecimento da iniciativa, teremos sem dúvida mais êxito. Mas além de ouvir, o mobilizador precisará também discernir nesse novo cenário. De que forma aquilo que a organização já está fazendo com excelência pode contribuir para o que podemos fazer juntos? Partindo da compreensão de que o Senhor da missão fala com os seus filhos, e, neste caso, os líderes dessas organizações, como podemos juntar as visões que Deus têm nos dado para o alcance de todos os povos? Duas visões juntas continuam a promover a unidade, e esse deve ser o nosso objetivo na mobilização.

Ao optarmos por esse cenário sugerido, perceberemos que muito do que fazemos hoje e chamamos de mobilização, na verdade se trata de divulgação. Apresentamos uma iniciativa, reservamos o espaço limitado de colaboração para novos parceiros e desafiamos à adesão, usando bons argumentos para isto inclusive. A divulgação é parte integrante de uma boa mobilização, mas não pode ser a íntegra dela.

Ao contrário, porém, se seguirmos pela construção participativa, tornaremos mais frequentes relacionamentos profundos de parceria, promoveremos a maior conscientização individual e corporativa dos papéis complementares na sinalização e proclamação do reino de Deus. Seja comunidade local, agência missionária ou outra organização que pense intencionalmente e empreende em missões, o grande passo é a nossa unidade no testemunho. O que chamamos de mobilização missionária precisa promover isto! O relacionamento é o que melhor define esse tipo de mobilização e a cooperação trará excelência do testemunho sobre Aquele que nos salvou.

Mobilização

Projeto Mazi
Felipe Perrelli
Felipe Perrelli Seguir

Felipe Perrelli atua no Recrutamento da MIAF – Missão para o Interior da África, compõe o corpo diretor da Missão Evangélica BASE e coordena a Mobilização da AMTB - Associação de Missões Transculturais Brasileira e Conexão VOCARE

Ler conteúdo completo
Indicados para você