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Livres para Construir Pontes

Livres para Construir Pontes

Temos visto diuturnamente as batalhas das narrativas no diálogo público. A polarização é uma característica desses embates, e por vezes a impressão é que no cenário a frente só existe uma dicotomia: a favor e contra. Muito dos argumentos e até algumas notícias que deveriam focar somente nos fatos estão eivados de conteúdos substancialmente ideológicos. De um lado ou de outro. Mas quem acha que vou falar de política-institucional está redondamente enganado. Quero continuar a falar de missiologia, e, como este canal busca, dentro de um recorte mais restrito de mobilização missionária. Todos nós sabemos que a missiologia brasileira sofreu uma grande influência estadunidense, e isto tem diversos aspectos positivos. O Brasil, porém, tem uma vocação dialógica e emocional mais presente (até por sermos latinos). Nossos métodos tendem a ser menos sistemáticos, as vezes confundidos de forma imerecida de não pragmáticos. O caso é que as diferenças sociais, econômicas e, especialmente, de matriz étnica são elementos presentes na nossa história, não há como sufocar isto na discussão sobre mobilização missionária. Todavia, isto nos deveria dar a percepção de alguns perigos. Quero falar de dois deles aqui: influência ideológica na ortodoxia e cooptação dos métodos pelas narrativas. No primeiro caso, antes de tudo, é evidente para mim que existe sim uma ortodoxia, sem a qual não conseguiríamos estabelecer minimante os limites do conteúdo que geramos. Se não temos uma ortodoxia sobre a qual andamos, como seguiremos em passos firmes para conclusões mais profundas? Como nos adaptamos a um mundo que muda rápido e incessantemente se não sabemos o mínimo que precisamos saber? É evidente, contudo, que a quantidade de certezas que podemos ter pode variar de acordo com a doutrina denominacional na qual imergimos, porém não podemos renunciar a um núcleo que nos une e caracteriza como evangélicos e, de forma ampliada, do que é ser cristão. Deixarmos de lutar por uma ortodoxia, mesmo diante da coexistência de diferentes doutrinas, é tirar um pilar de segurança na missiologia bíblica. Passa-se a ser vulnerável a qualquer vento de doutrina, a qualquer narrativa ideologicamente construída. Não existindo o mínimo em nos agarrar, a elite intelectual de cada geração pode construir novamente, e novamente, esse mínimo. Perde-se a identidade milenar ditada por único capaz de ditá-la, Jesus Cristo de Nazareth, o Autor e consumador da estrutura que chamamos de Igreja.Engana-se quem acredita que esta vulnerabilidade é somente fruto do descuido misisológico. Existem sim interesses muitas vezes pouco visíveis que desejam encontrar e manter espaços abertos que viabilizem novos fundamentos na formação da nova geração e influencie toda sociedade contemporânea. Surfam numa onda tão mencionada e debatida da “pós-modernidade”, onde a ausência de certezas é uma premissa e que toda instrumentalização social é justificada para alcançar o fim que esse movimento meramente secular deseja. Passo a esclarecer este ponto um pouco mais agora. A construção participativa e empática se não estiver liberta quanto à visão meramente humana pode se transformar em um eficiente instrumento de ressonância ideológica. Em razão do nosso contexto, penso eu que não precisaria explicar, todavia explico: a liberdade acima descrita se define na única biblicamente possível (olhem aí a ortodoxia!). O ponto é que as ideologias secularmente construídas podem limitar nossa visão de mundo, e feito isto, nos aprisionar numa discussão estéril quanto à criatividade missiológica. Atrapalha na tentativa de responder as indagações do Hoje e a na adaptação aos diferentes contextos denominacionais. É um grande perigo ainda mais para você, mobilizador! Se colocarmos como última chave interpretativa do mundo qualquer das oferecidas, além das que biblicamente podemos fundamentar, ficamos presos a elas. Sola Scriptura é uma importante estaca para lembrarmos neste momento do texto. O mobilizador, que trabalha na construção de pontes e na harmonização de entendimentos, nem sempre idênticos, vai precisar tomar ainda mais cuidado. Você tem se dedicado a discutir mais a visão de mundo secularmente proposta do que a biblicamente ditada? Você tem permitido que pessoas se afastem ou você mesmo tem se afastado por essas razões? Pergunto: qual é a sua prioridade e qual o tamanho da convicção que você e eu temos do chamado para mobilizar? Precisamos buscar as convicções que nos unem (elas existem!) para que sigamos unidos, livres e conscientes de cada vocação pessoal e institucional a fim de que o mundo ouça do Evangelho da Salvação. Soli Deo gloria.

Mobilização

Projeto Mazi
Felipe Perrelli
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Felipe Perrelli atua no Recrutamento da MIAF – Missão para o Interior da África, compõe o corpo diretor da Missão Evangélica BASE e coordena a Mobilização da AMTB - Associação de Missões Transculturais Brasileira.

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